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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Unidos da Coreia do Norte


Vem chegando o carnaval e as cercas de arame farpado vão surgindo por todos os lados. De repente guardas armados começam a tomar conta das ruas e a vigiar tudo que você faz pelas redondezas. Em alguns dias, agentes secretos se infiltram até em conversas de elevador, reprimindo o menor sinal de dissenso: todo mundo tem que apoiar o novo regime e movimentos de oposição não serão tolerados.

Desfiles tomam conta das ruas, com fileiras de pessoas reduzidas a pixels marchando ao som de tambores e outros instrumentos para uivos da massa ensandecida. Uniformes reluzentes passam em profusão, tanques alegóricos atropelam tudo o que passa pela frente.

A “patrulha da felicidade” fica de olho em potenciais rabugentos, dissidentes e reacionários que ousam não se render ao chamado dos tambores. Ai deles!

Comparações exageradas à parte, o carnaval, é sim, uma ditadura. Gente que não gosta de “bloco” não só fica com receio de dizer que não gosta daquilo, como por medo das recriminações no estilo “Gosta de que então? Passear em um museu na Europa?”, até vai junto com os amigos, chegando a fingir que se diverte só para não ser visto como o “do contra”.

O sujeito ali num canto, se sentindo mais miserável das criaturas no meio de bêbados, homes com sutiã da irmã e cheiro de sovaco com desodorante vencido,           mas ainda assim quando percebe que alguém o vigia de longe, já com a frase de recriminação pronta – “se diverte aí cara, é carnaval!” –rapidamente capricha naquele sorriso babaca que todo folião tem (ri de quê?) e fica pronto para a foto do Facebook.

Aliás, só essa frase “...mas é carnaval!” já deveria de justificativa para proibirem o evento por uns 10 anos, no mínimo.

Alguém está urinando no seu pé no meio da rua e você reclama? “Mas é carnaval!”. Um pentelho dá em cima de uma garota de forma inconveniente até que ela ameace chamar a SWAT? “Que isso, é carnaval!”. Parar em cima da faixa de pedestres? Tocar uma corneta cretina às 3h da manhã? Peidar na forafa? Mijar no guaraná? Defecar no patê? “Ah, é carnaval!”
 

E já que é assim, trate de gostar, meu amigo, senão a “tropa de choque da folia” chega batendo de cassetete.

Óbvio que muita gente se diverte genuinamente num desfile de bloco atrás de um trio elétrico, mas lembremos que a “Tomatina”, evento que todos atiram tomates uns nos outros no meio da rua, o festival do queijo rolante e o arremesso de cabras também diverte milhares de pessoas ao redor do mundo.

O problema que essas pessoas que se divertem genuinamente não conseguem acreditar que exista outras pessoas que detesta tudo isso genuinamente. O espanto já começa em letras de música como “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é” ou “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”.

Errado, minha gente. Muita gente boa detesta samba e eu só iria em um trio elétrico sob ameaça de um revólver ou adiantamento de alguns milhões de dólares americanos.

Assim caímos numa situação onde alguém que não goste de: barulho, cheiro de urina, lixo espalhado pela rua, multidões comprimidas em espaços exíguos, gente desconhecida se achando no direito de fazer brincadeiras idiotas como se fosse um amigo de infância, trânsito engarrafado, ruas interditados e gringos ávidos por turismo sexual, não necessariamente nessa ordem, se sente até culpado por não gostar de tudo isso e é recriminado abertamente se ousar.

Não se reúne 20 pessoas no Brasil para vaiar um bando de deputados ou senadores prestes a instalar um ladrão em algum cargo importante, mas é fácil juntar uns 100 para olhar cachorro atropelado e milhares para um desastre maior, tipo um desfile de bloco na orla de Ipanema.

Aos teimosos que cismam em não se render ao “reinado” de Momo Jung II, resta o exílio, isso se o engarrafamento não o deixar preso no trânsito do país do carnaval.
Fonte: http://www.contracorrenteza.com/

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

10 Melhores Filmes de 2012


Primeiro quero agradecer a todos que participaram enviando suas listas com os 10 melhores filmes de 2012.

Esse foi um bom ano para o cinema, pois tivemos grandes blockbusters. Por causa disso, muitos filmes “menores” que se destacaram incrivelmente, como o francês “Intocáveis”, o americano “Drive”, ou então a versão americana de “Millenium – O homem que não amava as mulheres” acabaram não aparacendo entre os 10, ou então não entre o top 3.
 
Espero que 2013 tenhamos um ano tão bom no cinema quanto foi 2012, para fazermos outra lista como essa.

Vamos aos resultados:

1 – Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge


2 – Os Vingadores


3 – O Hobbit


4 – 007 Skyfall



5 - Intocáveis


6 – O Espetacular Homem-Aranha


7 – A Invenção de Hugo Cabret


8 – Amanhecer Parte 2


9 – As Aventuras de Tintim


10 – Branca de Neve e o Caçador

 
Muitos outros filmes foram citados além da lista que o blog sugeriu e todos foram computados na votação.
Mais uma vez obrigado que a lista de 2013 seja repleta de filmes excelentes!


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Melhores Filmes de 2012

Depois de muito tempo sem atualizar o Blog, chega de descanso e vamos trabalhar. Entra ano e sai ano (ainda dá tempo de desejar um ótimo 2013?) e estou eu aqui falando de filmes novamente.

Já que o ano é novo, vamos eleger os 10 melhores filmes de 2012. Para facilitar, coloco aqui uma lista para ajudá-los a lembrar das opções, mas sintam-se a vontade para indicar outros, ok?

Vamos lá:

- 007 - Operação Skyfall
- A Era do Gelo 4
- A Invenção de Hugo Cabret
- Amanhecer - Parte 4
- Argo
- As Aventuras de Tintim
- Atividade Paranormal
- Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge
- Battleship
- Branca de Neve e o Caçador
- Capitão América
- Drive
- Espelho, Espelho Meu
- Intocáveis
- Jogos Vorazes
- John Carter - Entre Dois Mundos
- Looper
- Madagascar 3 - Os Procurados
- MIB 3
- Millenium - Os Homens que não Amavam as Mulheres
- Moonrise Kingdom
- Na Estrada
- O Artista
- O Espetacular Homem Aranha
- O Hobbit - Uma Jornada Inesperada
- O Legado Bourne
- O Espião que Sabia Demais
- O Homem da Máfia
- Os Infratores
- Os Mercenários 2
- Os Vingadores
- Para Roma com Amor
- Precisamos Falar sobre Kevin
- Prometheus
- Valente
- Ted
- Um Divã para Dois

Mandem sua listinha elegendo por ordem de preferência os 10 melhores filmes de 2012 para mesteves23@gmail.com ou postem nos comentários até o dia 20/01/13.

O Resultado será divulgado no dia 25/01/13.

[ ]´s Rei

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Intocáveis

Para os amantes da sétima arte, não há nada mais prazeroso que entrar em uma sala de cinema sem grandes expectativas e após duas horas sair dela completamente maravilhado. Essa foi minha reação há poucas semanas quando finalmente assisti Intocáveis.

Na verdade, digo finalmente, porque eu não fui assistir sem nenhuma expectativa. Eu já havia ouvido a edição do Rapaduracast Plus 54 onde comentam o lançamento do filme no circuito nacional e recebido a recomendação de dois colegas. De qualquer maneira, fui surpreendido pois estava esperando um drama e na verdade o filme é uma excelente comédia, ainda que baseado em uma situação dramática, ela é abordada sem sentimentalismo.

O filme baseia-se em fatos reais vividos pelo bilionário aristocrata francês Philippe Pozzo di Borgo e seu cuidador Abdel Yasmin Sellou. No filme, Philippe é retratado pelo excelente ator François Cluzet e Abdel fica a cargo do carismático ator Omar Sy.  Após sofrer um grave acidente, o aristocrata fica paraplégico e resolve contratar um novo cuidador, e para isso, passa a recrutar candidatos ao cargo. Driss (Omar Sy) um ex-presidiário em liberdade condicional candidata-se a vaga sem nenhuma pretensão de obtê-la, pois seu único objetivo é realizar a entrevista, para somar as 3 entrevistas sem sucesso e continuar a receber o seguro desemprego francês.

Durante a entrevista, Driss comporta-se de forma totalmente despretensiosa e sem nenhuma preocupação com as boas maneiras necessárias para a ocasião, o que acaba chamando a atenção de Philippe, que resolve convencê-lo a aceitar o cargo. Começa então uma relação de companheirismo e amizade desprovida de piedade, tanto por parte de Driss, que tem sua cota de problemas familiares, quanto de Philippe.

A química entre esses dois atores é fantástica e fazem certamente o sucesso desse ótimo roteiro. O filme é dirigido pela dupla de diretores e roteiristas Olivier Nakache e Eric Toledano, e tournou-se a maior bilheteria francesa de todos os tempos, superando os antecessores O Artista e O Fabuloso destino de Amélie Poulain.

Hollywood que tanto apreciamos que me desculpe, mas não há nada como um belo roteiro francês, ainda que seja um filme comercial. Como faz o pessoal do podcast MRG (Matando Robôs Gigantes), minha nota de 0 a 5 robôs gigantes para Intocáveis é um raro e valoroso 5 robôs gigantes.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Rolling Stones - 50 Anos!


Comemorar 50 anos de alguém ou de alguma coisa deve ser por si só uma verdadeira celebração. O que pensar de 50 anos de uma banda de Rock? Se lembrarmos que o próprio Rock n´ Roll tem pouco mais de 60 anos, como uma única banda consegue ser tão duradoura?

Desde o último mês de Julho o mundo celebra os 50 anos dos Rolling Stones, a qual para muitos (inclusive por este que vos escreve) é a maior banda de Rock de todos os tempos. Fundada em 12 de Julho de 1962 na cidade de Londres, sua primeira formação era composta por Brian Jones, Keith Richards, Mick Jagger, Bill Wyman e Charlie Watts, e a banda alicerçava-se no bom e velho Blues.

Fãs incondicionais dos grandes Bluesmen Americanos como Muddy Waters, John Lee Hooker, Buddy Guy etc, e também pelo qual é considerado o verdadeiro pai do Rock, Chuck Berry, a banda se baseava no repertório desses artistas. O próprio nome da banda foi sugerido a partir de uma música do Muddy Waters intitulada Rollin Stones, sendo a primeira apresentação da banda com esse nome foi realizada no mítico Marquee Club de Londres, em 1962.

A primeira alteração na composição da banda veio em 1969 com a morte de Brian Jones, o Stone mais famoso nessa época, com então 27 anos (sim, ele é o segundo membro do clube dos 27 e do “J” famosos que morreram nessa idade, que começou com Robert Johnson, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison), apesar dele ter abandonado a banda poucos dias antes de sua morte. Para compor o lugar do Jones, entra na banda Mick Taylor. Dias após a morte de Jones havia um show já programado há muito tempo que fora realizado no Hide Park, em Londres, para um público de mais de 300 mil pessoas, onde foi colocado uma grande foto de Jones, e teve a apresentação interrompida por Jagger para ler uma passagem do poema Adonais de Percy Bysshe Shelley, enquanto 3000 borboletas brancas eram soltas do palco para a plateia emocionada.
 
Ainda em 1969, no dia 6 de dezembro foi realizado um grande show que marcaria definitivamente a vida da banda. Esse show foi ao ar livre na cidade de Altamont, na Califórnia, com um público pelo menos duas vezes maior que do Hide Park e apresentou problemas antes mesmo de começar. A segurança do show foi realizada pelo famosa gangue de motoqueiros Hell´s Angels, de São Franciso. Qualquer pessoa que tentasse subir ao palco era agredida e escorraçada de volta para a plateia. Durante o show do Jefferson Airplane, que abria o show dos Stones, a quantidade de fãs encaminhadas para a enfermaria do local era maior do que os médicos de plantão tinham capacidade de atender. Durante o show dos Stones, um fã que já havia sido agredido pelos selvagens Hell´s Angels, tenta novamente invadir o palco e é esfaqueado por um dos seguranças e acaba morrendo no mesmo dia. O fato é controverso, pois há uma versão de que o jovem esfaqueado estava armado e chegou a levantar o revolver em direção a Jagger, por isso o segurança se jogou em direção a ele e o esfaqueou.

Em 1971 a banda estreia seu próprio selo, o Rolling Stones Records, propiciado pelo fato da banda ter passado para a Atlantic Records. Nesse ano a banda lança o épico disco Stick Fingers, com a capa idealizada por Andy Warhol e lança também o mais famoso logo do Rock, a Boca com a língua para fora, que é equivocadamente atribuído a Andy Warhol, mas que na verdade foi criado por John Pasche.
Em 1974 os Stones gravam o clássico It´s only Rock n´Roll no estúdio de Ronnie Wood, então guitarrista do The Faces (liderada por Rod Stweart) e qual acaba assumindo a segunda guitarra da banda, após saída repentina de Mick Taylor que opta por seguir carreira solo.




Após vários sucessos na década de 70, os Rolling Stones saem da Atlantic Records e vão para a EMI em 1981 e lançam o disco Tattoo You, tido por muitos com o melhor álbum dos Stones e o maior sucesso comercial.

Em 1985, Ian Stewart, pianista da banda e considerado o 6º Stone morre em virtude de um ataque cardíaco e é homenageado no ano seguinte com o álbum Dirt Work.
 
Após alguns anos separados em virtude de desentendimentos entre Jagger e Richards, os integrantes aproveitam para lançar álbuns em carreiras solo. Em 1989 os integrantes da banda colocam os problemas de lado, gravam o álbum Steel Wheels e inauguram a onda dos mega palcos e tornam-se a maior banda de todos os tempos. A partir de 1990 e do lançamento de Flashpoint, a banda torna-se expert nos negócios, transformando-se em uma banda multimilionária, alcançando espaços na mídia até então nunca vistos, consolidando a marca “The Rolling Stones”.

Em 1993 outro membro fundador deixa a banda; o baixista Bill Wyman. Para seu lugar é contratado o baixista Darryl Jones, não sendo considerado membro oficial. Ainda esse ano é lançado o álbum Voodoo Lounge e finalmente a turnê da banda vem para o Brasil (eu estava lá no Pacaembu e quase tive um ataque cardíaco de emoção, rs..), já que na década de 70 os shows programados para serem realizados no Brasil e outros países da América do Sul fora boicotado pelos então governos militares.

Em 2002 a banda completa 40 anos e lança o disco Forty Licks, e saem em turnê ao redor do mundo, intitulada como Licks Tour. Três anos mais tarde é lançado o álbum e a turnê A Bigger Bang, que passa pelo Brasil através de um mega show gratuito na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para mais de 1,5 milhões de pessoas, entrando para a história como o maior show da banda e o maior concerto de rock de todos os tempos.
No ano de 2008, estreou nos cinemas mundiais o filme The Rolling Stones Shine a Light, concebido e dirigido por pelo grande diretor Martin Scorsese (um declarado fã da banda), com 16 câmeras focadas diretamente nos músicos. O filme mostra ainda imagens de arquivo desde o início da banda nos anos 60, confrontando com declarações atuais dos integrantes.
 
Finalmente em 2012 a banda completa seus 50 anos de trabalho e são considerada uma das mais antigas em atividade. No mesmo ano, começam a ensaiar para saírem em uma nova turnê no fim do ano, ou início de 2013, aquela que pode ser a turnê de despedida da banda, e lançam um novo logo comemorativo, desenhado pelo artista Shepard Fairey.




E para continuar a comemoração, as próximas versões na sessão “Música” será dedicada aos Rolling Stones.



terça-feira, 21 de agosto de 2012

George R.R. Martin entrevista Bernard Cornwell


Este post é dedicado aos fãs de Martin, escritor da célebre saga As Crônicas de Gelo e Fogo, a qual você também pode ver a série televisiva que está sendo produzida pela HBO com o nome de Game of Thrones (o segundo post desse blog, leia aqui), e também do escritor Bernard Cornwell, autor de As Crônicas de Arthur, As Crônicas Saxônicas entre outros.

Esta entrevista foi feita e publicada pelo próprio Martin em seu blog.

Enjoy it.

G. Martin: É muito antiga minha afirmação de que o romace histórico e a fantasia épica são irmãos sob a pele, que os dois gêneros tem muito em comum. Minha série deve muito ao trabalho de J.R.R Tolkien, Robert E. Howard, Jack Vance, Fritz Leiber, e os outros grandes fantasistas que vieram antes de mim, mas eu também tenho lido e apreciado o trabalho dos romancistas históricos, como Thomas B. Costain, Mika Waltari, Alfred Duggan, Nigel Tranter, e Maurice Druon. Quem foram suas próprias  influências? Que escritores você cresceu lendo? Ficção histórica foi sempre sua grande paixão? Você já leu fantasia?


B. Cornwell: Você está certo – romances de fantasia e históricos são gêmeos – e eu nunca gostei do rótulo “fantasia”, que é muito generalista e acaba fazendo alusão aos contos de fadas. Parece-me que você escreve romances épicos em um mundo inventado que é fundamentado na realidade histórica (se as histórias dos livros se passam no futuro, então “fantasia” torna-se magicamente “Sci-fi”). Então eu fui influenciado por todos os três: fantasia, sci-fi e romances históricos, embora a maior influência tenha sido dos livros de Hornblower do C.S. Forester. Eu os li quando era adolescente, era consumido por eles, fiquei sem material de leitura após o último da série e assim comecei a ler as histórias de não-ficção do período napoleônico. Isso levou a uma obsessão por Wellington e seu exército, o que levou diretamente para Sharpe. Talvez se eu tivesse lido Tolkien antes de Forester, então eu teria tomado aquele caminho (e ele me tenta!) mas todos nós escrevemos o que queremos ler e eu sempre fui um ávido consumidor de romances históricos... e, é claro, de histórias! Devorei todos os escritores clássicos de Sci-Fi: Asimov, Heinlein, e etc. Eles me ensinaram como a história é importante, mas a grande dívida está com C.S. Forester (outro mestre contador de histórias).

G. Martin: Fantasistas desfrutam de certas liberdades que os romancistas históricos não. Eu posso surpreender meus leitores, matando reis e outros personagens principais, mas o destino de reis e conquistadores do mundo real está bem ali, nos textos da história, nós sabemos quem vive e quem morre antes de terminarmos o romance aberto. Quando a batalha acontece no Abismo de Helm ou nos Campos de Pelennor do Tolkien, ou sobre a Baía de Água Negra e no Bosque dos Murmúrios, em minhas próprias fantasias, o resultado da luta é desconhecido até o autor revelá-lo na página, mas o romancistas histórico é obrigado a trilhar o caminho estabelecido pela história. Como você lida com o desafio de fazer Waterloo ou Bull Run ou Agincourt algo surpreendente e emocionante  quando a maioria dos seus leitores sabem de antemão o resultado?

B. Cornwell: Eu posso surpreender os meus leitores matando reis e outros personagens principais. Oh sim, você pode fazer isso! Eu ainda não te perdoei pela execução de Ned Stark, mas eu estou aprendendo a viver com ela. Eu nunca penso que importa se o leitor conhece o desfecho da história antes de chegar ao fim – todos nós, quando crianças, queríamos que as mesmas histórias fossem contadas para nós mais e mais ainda mesmo que soubéssemos que o lobo não conseguiria comer a pobre Chapeuzinho. Eu sempre penso em um romance histórico como tendo duas histórias – a grande história e a pequena – e o escritor as inverte. A grande história em Gone With the Wing é se o Sul pode sobreviver à Guerra Civil e todos nós sabemos o que aconteceu, mas a pequena história é se Scarlet pode salvar Tara, e essa pequena história é colocada em primeiro plano, enquanto a grande história serve como plano de fundo. Suponho que o suspense esteja nessas pequenas histórias – o Sharpe vai sobreviver à Badajoz? (bem, o leitor sabe que ele vai, eu suponho!). E eu acho que os leitores conseguem encontrar um fascínio no desenrolar de uma história. Grande parte do povo inglês conhece a Batalha de Agincourt – está profundamente na consciência nacional – mas quase ninguém sabe o que realmente aconteceu lá. A história rapidamente se transforma em mito (o mito de Agincourt diz que as flechas ganharam o dia, o que decididamente não aconteceu, embora Deus saiba que Henrique teria perdido sem elas) e, talvez, um dos prazeres  de ler  um romance histórico é descobrir  a verdade por trás do mito.

G. Martin: Ficção histórica não é história. Você está misturando fatos reais e personagens históricos reais com personagens de sua própria criação, como Uhtred e Richard Sharpe. Quanta “licença poética” deve ter um romancista quando lida com os acontecimentos da história? O quão preciso ele precisa ser? De onde você traça essa linha?

B. Cornwell: Não posso mudar a história, mas posso jogar com ela. A resposta depende um pouco do que estou escrevendo. Eu fiz uma trilogia sobre o “Rei” Arthur e não há quase nenhuma história real na qual possamos contar, então eu pude fazer mais ou menos o que eu queria. Quanto aos livros saxônicos eu tive um esqueleto para a história graças à Crônica Anglo-Saxônica e algumas outras fontes, mas não há muita carne sobre os ossos, por isso tenho muita liberdade. Mas se eu estou escrevendo sobre a Revolução Americana, então eu não tenho quase nenhuma liberdade, porque eu estou invadindo o terreno elevado da lenda americana e devo contar a história real se o livro vai persuadir o leitor a respeito da veracidade da história – por isso, em Redcoat, eu mudei apenas um evento, trazendo-o para a frente apenas 24 horas. Então eu confessei os meu pecados em uma nota histórica no final do livro. Ocasionalmente eu fiz mudanças drásticas; Sharpe´s Company conta a história do terrível ataque de Badajoz e, em resumo, de uma simulação de ataque que pretendia apenas chamar os defensores franceses para longe das brechas, capturando a cidade, enquanto o ataque principal sobre essa brecha falhou desastrosamente. Pareceu-me que o drama daquela noite aconteceu nessa brecha, assim Sharpe tinha de atacá-la, e se Richard Sharpe ataca, ele ganha (ele é um herói). Assim, no romance, eu permiti que os atacantes chegassem através da brecha (o que não aconteceu), pois caso contrário, a história não iria funcionar. Mas, novamente, eu confessei o pecado no final do livro.

G. Martin: Eu escrevi tanto ficção científica quanto eu tenho escrito fantasia ao longo dos anos. Um subgênero cada vez mais popular é a ficção científica é o romance do mundo alternativo – às vezes chamado de “contrafactuais” pelos historiadores, ou de histórias “e se?” pelos fãs. Por falta de um prego, o reino foi perdido... mas e se o prego não foi perdido? E se Napoleão ganhou Waterloo? E se o Sul venceu a Guerra Civil? E se o Império Romano nunca caiu? O que você acha de tais histórias? Você já esteve tentado a escrever uma você mesmo?

B. Cornwell: Nunca! Talvez seja só eu, mas a história alternativa não tem recurso. Lembro-me de um filme louco em que eu F-16 da Força Aérea Americana de repente apareceu sobre Pearl Harbor. Certo. Começamos por concordar que romances de “fantasia” e romances históricos são gêmeos e parece-me que a mistura dos dois é incestuosa e, ao contrário de Jaime e Cersei Lannister, eu não sou fã desses incestos.

G. Martin: Falando em batalhas... Eu acredito que você faz as cenas de batalha melhor do que qualquer outro escritor que eu já li, passado ou presente. E de onde eu estou sentado, as batalhas são difíceis. Eu escrevi a minha parte. Às vezes eu emprego o ponto de vista privado, muito de perto e pessoal, deixando o leitor no meio da carnificina. Isso é vivido e visceral, mas de necessidade caótica, e é fácil perder todo o senso de batalha como um todo. Às vezes eu vou com o ponto de vista geral, em vez disso, olhando para o baixo do alto, vendo linhas e flancos e reservas. Isso dá uma grande sensação de táticas, de como a batalha é ganha ou perdida, mas pode facilmente escorregar para a abstração. Mas você parecer ser capas de fazer as duas coisas, simultaneamente. As setas de Agincourt, Uhtred grunhindo e empurrando uma parede de escudos Saxões, Sharpe levando uma esperança vã... você nos dá todos os sons, cheiros e sangue, e ainda assim as táticas de batalha permanece sempre compreensíveis. Como você faz isso? Quais são os blocos de construção de uma cena grande de batalha? De todas as batalhas que você escreveu, você tem uma favorita?

B. Cornwell: Eu tenho uma enorme vantagem sobre você, a de que minhas batalhas foram travadas e os sobreviventes deixaram relatos, e alguns tem sido exaustivamente descritos pelos historiadores militares, então, é me dado um quadro que você tem que inventar. Eu também odeio ler uma história militar e ficar confuso, normalmente por algarismos romanos (“Corpo XV mudou-se para oeste enquanto a Brigada XIV foi reimplantada em direção ao sul” e assim por diante), o que significa que você está tendo que constantemente ser direcionado a um mapa, ou mapas, e tentar lembrar qual é o Corpo XV... Assim, eu tento dar um quadro ao leitor antes da batalha começar – onde eles estão lutando? Quais são os marcos mais salientes? Quais unidades são importantes? Eu não quero que o leitor pare para consultar um mapa... Embora eu tenha certeza que falhei nisso. Feito isso vou tentar mudar o ponto de vista, assim como você faz, entre um close-up desagradável e uma visão geral mais distantes dos combates. The Face of Battle, do John Keegan, é um livro maravilhoso para ler e descobrir como os homens experimentam uma batalha, e isso foi uma grande influência. Eu inventei batalhas a partir do zero – e aquela que eu estou mais orgulhoso é a do Monte Badon nos livros de Arthur. A batalha aconteceu, mas não sabemos nada do que aconteceu (ou até mesmo onde aconteceu), então eu usei as táticas de Wellington da batalha de Salamanca em Sharpe´s Sword.

G. Martin: Um tema familiar em uma série de fantasia épica é o conflito entre o bem e o mal. Os vilões são frequentemente dark lords com capangas demoníacos e hordas de subordinados destorcidos, deformados e vestidos de preto. Os heróis são nobres, valentes, castos e muito formosos à vista. Sim, Tolkien fez algo grandioso e glorioso a partir disso, mas nas mãos de escritores menores, bem... vamos apenas dizer que esse tipo de fantasia se tornou desinteressante para mim. São os personagens cinzentos que mais me interessam. Esses são os tipos que me interessam escrever a respeito... e ler sobre. Parece-me que você compartilha essa afinidade. Seus protagonistas tem momentos de heroísmo, mas eles tem falhas também. Por mais que eu goste de ler sobre Uhtred, há mais do que uma pequena escuridão nele, e Richard Sharpe não é um homem que você queira atravessar. E você chegou ao ponto de fazer o protagonista de seu romance sobre Guerra Civil americana um copperhead, um nortista combatendo pelo sul... Não é um grupo que gera muita simpatia. Seus vilões são tão humanos, não há um monstro de papelão entre eles. E você é geralmente menos do que reverente quando retrata alguns dos heróis da história britânica e americana. Paul Revere e Alfred, o Grande me vêm à mente. O que existe nos personagens imperfeitos que os torna mais interessantes do que heróis convencionais?

B. Cornwell: Talvez todos os nossos heróis são reflexos de nós mesmos? Eu não estou dizendo ser Richard Sharpe (Deus nos livre), mas tenho certeza que parte da minha personalidade vazou para ele (ele é muito mal-humorado no período da manhã). Certa vez, escrevi uma série de prefácios para os livros Hornblower e tive de lidar com a questão perene em qual Hornblower foi baseado? Alguns disseram Cochrane, outros sugeriram Edward Pellew (ambos foram notáveis capitães de fragatas nas guerras napoleônicas), mas era óbvio que Hornblower era a pessoa que Forester quis ser. Hornblower foi Forester, sem alguns dos traços menos atraentes de do Forester. A maioria dos meus heróis são pessoas de fora... talvez porque eu me senti assim quando crescia (longa história, não vamos contá-la aqui), e é por isso que meus personagens favoritos seus são Arya e Jon Snow. E, talvez, personagens falhos são mais interessantes porque são forçados a fazer uma escolha... Um personagem convencionalmente bom tem vontade sempre de fazer a coisa certa; direita. Chato. Sharpe, muitas vezes fez a coisa certa, mas geralmente pelas razões erradas, e isso é muito mais interessante.

G. Martin: Quando Tolkien começou a escrever O Senhor dos Anéis, foi concebido como uma continuação para O Hobbit. “A história cresceu enquanto era contada”, disse ele mais tarde, quando O Senhor dos Anéis tinha crescido e se tornado a trilogia que conhecemos hoje. Essa é uma frase que eu muitas vezes tive ocasião de citar ao longo dos anos, como a minha própria As Crônicas de Gelo e Fogo, que cresceu de três livros que eu tinha originalmente vendido para os sete livros (cinco publicados, dois a mais para escrever) que agora estou produzindo. Muito do seu trabalho também tomou a forma de série. Os seus contos também “crescem enquanto são contados”, ou você sabe quanto tempo vai levar suas viagens antes de se preparar? Quando você escreveu o primeiro do Sharpe, você podia imaginar quanto tempo e quão longe você iria marcar com ele e Harper? Você sabia quantos livros de histórias Uhtred exigiria quando você se sentou para escrever sobre ele?

B. Cornwell: Não faço ideia. Eu nem sei o que vai acontecer no próximo capítulo, muito mais no próximo livro, e não tenho ideia de quantos livros poderia haver em uma série. E.L. Doctorow diz algo que eu gosto que é que escrever um romance é um pouco como dirigir por uma estrada de um país desconhecido durante a noite e você só pode ver o mais longe que seus faróis um pouco fraco lhe mostram. Escrevo na escuridão. Eu acho que a alegria de ler um livro é descobrir o que acontece, e para mim essa é a alegria de escrever um também.

G. Martin: Eu conheci milhares dos meus leitores face a face, não só em turnês do livro, mas em convenções de fantasia sci-fi, onde tende a existir muito mais interação entre os escritores e leitores do que é habitual em outros gêneros. Eu costumava responder a todas as minhas cartas de fãs, nos dias em que os leitores ainda enviavam cartas aos cuidados de meus editores (foi fácil, não havia muito). O e-mail tem aumentado a quantidade de cartas que recebo milhares de vezes, muito além da minha capacidade de mantê-las, mas eu ainda tento ler todos os e-mails que recebo, mesmo quando eu não posso respondê-los. Eu não tenho Facebook ou Twitter, mas eu tenho um blog (no Live Journal), e meu endereço de e-mail pode ser encontrado com bastante facilidade. Mas existem perigos de ser tão acessível, como eu descobri nos últimos anos. A grande maioria dos meus fãs são pessoas incríveis, perspicazes, inteligentes, solidárias... mas há uma pequena mas vocal minoria que pode ser irritante. Como você tem se relacionado com seus leitores ao longo dos anos? Você acha que um leitor não deve nada a seus leitores, além do trabalho em si? Os fãs enviam-lhe sugestões como eles querem que a série acabe? Enviam-lhes obra de arte, presentes? Nomeiam filhos e animais de estimação com o nome de seus personagens? Escreve “fanfictions” usando seus personagens? Você alguma vez se viu influenciado pelas reações de seus leitores para com um livro, ou um personagem?

B. Cornwell: Eu encontrei meus fãs para ser fantástico. Há um punhado minúsculo que quer ser excessivamente crítico sobre alguns detalhes (e sim, é claro que existem erros) e uma vez, no meu site, eu implorei para que um leitor encontrasse um outro autor para ler. Mas a grande maioria é divertida de se conhecer e é de importância vital ouvi-los. Eu fiz uma excursão do livro uma vez e três pessoas separadamente me disseram que hora de Sharpe ter alguma mulher de alta classe. Eu não tinha percebido que ele vinha convivendo com mercadoria bruta durante tantos livros, então eu respondi a eles dando-lhes Lady Grace em Sharpe´s Trafalgar, e ela continua sendo minha heroína favorita. Ela nunca teria existido sem os fãs.

G. Martin: Ambos tivemos o privilégio de ver nossos personagens trazidos à vida na televisão. Sean Bean foi Richard Sharpe muito antes de ter sido Ned Stark (e verdade seja dita, ele foi um Ned Stark em grande medida, porque David Benioff, Dan Weiss, tínhamos visto o quão magistralmente ele interpretou Sharpe). Como você se sentiu sobre a série da BBC? Até que ponto você se envolveu com ela? Será quem algum dia vamos ver algum de seus outros personagens na tela? Se assim for, você mesmo gostaria de escrever os roteiros? O que você acha que faz uma boa adaptação? E será que vamos ver Sean Bean como Sharpe novamente?

                                                                             Sean Bean como Ned Stark

B. Cornwell: Eu achei que o Sharpe da série foi ótimo mesmo. É claro que eles mudaram os livros, mas eles não tinham escolha. Você e eu podemos escrever uma cena com 100 mil e isso não nos custa nada, mas todo o extra é um dreno em um orçamento de TV, mas eles lidaram muito bem com essa restrição e Sean, é claro, foi um Sharpe maravilhoso e um Ned Stark (que deveria ter vivido, maldito). Até onde eu sei não há planos para uma nova série. Há uma conversa de fazer Agincourt em um filme (eu não estou prendendo a respiração) e uma série de TV sobre Uhtred (o que seria bom, mas novamente, eu ainda estou respirando). Eu não quero nenhum envolvimento com qualquer produção, fora o de ser um líder de torcida. Eu trabalhei em televisão por 11 anos e aprendi o suficiente para saber que eu não sei nada sobre produção de drama de TV, por isso eu estou feliz em deixá-lo para os especialistas. E eu duvido que poderia escrever um script – Eu nunca tentei e preferiria escrever um romance.

G. Martin: Última pergunta. O que Bernard Cornwell nos reserva? Você já fez as Guerras Napoleônicas, a Guerra Civil Americana, a Guerra dos Cem Anos, Rei Arthur, os saxões e os dinamarqueses. Você vai voltar a qualquer uma dessas eras, revisitar algum de seus personagens das grandes séries? Ou existem outras épocas da história que você pretende contar?

B. Cornwell: Há um período que eu estou desesperado para escrever sobre (perdoe-me se eu não digo qual porque eu não quero outra pessoa escrevendo sobre ele em primeiro lugar). Mas o próximo é um outro romance sobre Thomas de Hookton na Guerra dos Cem Anos, então de volta a Uhtred e os saxões.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Drive - O Filme


Depois de um breve intervalo, volto com um post dedicado a sétima arte. Drive certamente é um dos melhores filmes que assisti esse ano. Poderia falar muita coisa sobre ele, mas preferi publicar a crítica bem escrita do site Pipoca e Nanquim, a qual eu concordo em gênero número e grau.
Uma boa leitura!


É muito interessante acompanhar a ascensão de um exímio cineasta. Depois de executar uma respeitável trilogia intitulada Pusher, o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn chamou a atenção de todos com a insana história real de Bronson o presidiário mais infame e brutal da Inglaterra -, e em O Guerreiro Silencioso (Valhalla Rising) explorou de forma assustadora a vida de homens perdidos em uma Europa montanhosa, que beirava o início das cruzadas e chafurdava na violência e ignorância. Uma realidade certamente distante.

Mas em Drive, o diretor atinge um nível de perfeccionismo que em suas outras obras não alcançou. Ele encontra o tempo certo, apresenta a trilha perfeita, escolha somente as palavras exatas e entrega de presente uma fita memorável, que o posiciona ao lado de grandes diretores de nossa geração. Sem exageros.

O Filme conta a história de um jovem e habilidoso motorista que trabalha como dublê em cenas de velocidade. Mas, em suas horas vagas, exerce outro tipo de serviço onde a perícia ao volante é igualmente importante. Cercado por interesses escusos da máfia local, o piloto acaba pisando em alguns calos, fato que desengatilha uma cadeia de eventos que pode prejudicar todas as pessoas ao seu redor, inclusive sua nova amiga Irene, cujo filho Benício tem pouco mais de 10 anos.

Como todo trabalho bem sucedido, podemos perceber em Drive o caminho, respeito e, principalmente, a atenção que o diretor tem aos mínimos detalhes de sua execução. A criatividade então surge como diferencial: cenas inteligentes, elaboradas de forma poética, iluminação fantástica e edição ao melhor estilo europeu. E o que falar da emblemática trilha sonora? Ela consegue fazer com que a sonoridade dos anos 80 emocione novamente, mesmo com suas linhas extremamente melosas, sintetizadas e irreais.

Refn apresenta traços de genialidade que obviamente são frutos da influência de mestres como Martin Scorcese, Tarantino, Kubrick e do conterrâneo Lars Von Trier. Na verdade, o slow motion utilizado pelo diretor, em certos momentos, nos remete as atuais obras de Trier, como Melancolia e o Anticristo.

O roteiro de Hossein Amini adapta o elogiado clássico noir homônimo de James Sallis. A forma mecânica com que o motorista se desenvolve no livro é transcrita de maneira exemplar no longa, fazendo do personagem um ser complexo e contraditório, altamente articulado mas, ao mesmo tempo, se focando somente em agir instintivamente, como se fosse apenas uma extensão de seu carro, um herói cheio de falhas e estranhezas.

"Much later, as he sat with his back against an inside wall of a Motel 6 just north of Phoenix, watching the pool of blood lap toward him, Driver would wonder whether he had made a terrible mistake. Later still, of course, there´d no doubt. But for now Driver is, as they say, in the moment."
 - Trecho do livro Drive, de James Sallis.

E no papel do motorista sem nome temos Ryan Gosling. Sendo comprovadamente um bom ator, em Drive ele encarna, principalmente, o espírito de um cara diferente em tudo que faz, com raciocínio rápido e apto a realizar atos de violência descomunal. Basicamente nenhuma informação de seu passado é oferecida, e poucas frases são proferidas pelo mesmo durante toda a projeção - poucas, mas contundentes. Lembrando em certos momentos um ser robótico, e em outras o Stallone "Cobra", podemos até fazer um link do motorista com heróis de games desprovidos de alma, como Niko Belic, da franquia GTA (Rockstar), ou mesmo enxergar semelhanças  do longa com a série  Driver (Ubisoft). 

Servindo como par romântico (pouco convencional) temos Carey Mulligan e sua adorável Irene. A atriz apresenta extrema sensibilidade com a personagem, fazendo dela o retrato perfeito da solidão e tristeza. No papel do vilão Nino, o impagável Ron Perlman chama atenção e entrega um dos melhores trabalhos da sua vida. Já Albert Brooks, como Bernie Rose, constrói um mafioso diferente de tudo que você já viu (sua interpretação lhe rendeu uma justa indicação ao Globo de Ouro). E fechando o time, temos ainda o mecânico Shannon, interpretado pelo eficiente Bryan Cranston, famoso pela série de TV Breaking Bad.

No final, Drive se mostra um neo-noir contemplativo. Nicolas Winding Refn explora a natureza humana de forma investigativa, transformando um olhar em mil palavras e valorizando estes momentos de maneira única. A obra consegue intercalar perfeitamente momentos de puro ódio com a beleza triste de um amor platônico, resumindo em apenas um beijo todo este significado. Refn merecidamente ganhou Cannes de melhor direção por Drive e deixou todos bem animados com o que poderia vir a seguir.

Filme obrigatório.


Fonte: http://pipocaenanquim.com.br/cinema/drive-critica/